A mesma venda, dois compradores diferentes
Você vende o mesmo produto, pelo mesmo preço, para dois clientes. Um é pessoa física. O outro é uma empresa que apura imposto e aproveita crédito do que compra. A etiqueta é idêntica para os dois.
O que cada um enxerga como custo real da compra
Para quem aproveita crédito, parte do que se paga na compra volta na apuração. Entre dois fornecedores com o mesmo preço, o que gera crédito sai mais barato — sem ninguém ter dado desconto.
A sua decisão de regime deixou de aparecer só na guia de imposto. Ela aparece no seu preço, do ponto de vista de quem compra de você.
Quem vende para consumidor final quase não sente isso. Quem vende para outras empresas sente na negociação — e é essa a diferença que entrou na escolha de regime.
Os três regimes lado a lado
Uma tabela com os critérios objetivos, e outra com o que você precisa ter na mão antes de sentar com a contabilidade. Nenhuma delas diz qual é o melhor — isso depende do seu caso.
Limites, quem pode e como se define
Os limites de faturamento são o primeiro filtro, e eles não se discutem: ou a empresa cabe, ou não cabe.
| Regime | Limite de faturamento anual | Como a empresa entra nele |
|---|---|---|
| Simples Nacional | Até R$ 4,8 milhões | Por opção formalizada, com prazo próprio para adesão |
| Lucro Presumido | Até R$ 78 milhões | Pelo primeiro pagamento de IRPJ e CSLL do ano, ou pela primeira declaração |
| Lucro Real | Sem limite de faturamento | Pelo primeiro pagamento do ano; obrigatório para alguns perfis de empresa |
O que levar respondido para a reunião
O contador conhece a norma. O que ele não tem é o retrato do seu negócio — e é isso que decide a conta.
| Pergunta | Por que ela pesa | Onde está a resposta |
|---|---|---|
| Quanto eu faturei nos últimos doze meses? | Define quais regimes estão disponíveis | No seu sistema, não na memória |
| Quanto disso foi para empresa e quanto para consumidor final? | Decide se o crédito do cliente é assunto seu | Na composição da sua carteira |
| Qual é a minha margem real, depois de tudo? | Determina o impacto de qualquer mudança | No custo por produto, não no faturamento |
| Quanto eu compro com documento e de quem? | Afeta o crédito que você mesmo aproveita | Nas entradas registradas |
| Estou perto de algum limite? | Antecipa uma mudança que pode chegar sem aviso | Na projeção dos próximos meses |
Quatro jeitos de errar essa decisão
Nenhum deles é erro de cálculo. São erros de recorte: olhar só uma parte do problema e decidir com ela.
Decidir só pelo imposto que aparece na guia
É o instinto natural: compara-se quanto se paga em cada regime e escolhe-se o menor. O que essa conta ignora é o efeito sobre a venda — se o seu cliente empresa deixa de comprar porque a compra ficou mais cara para ele, o imposto economizado não paga o faturamento perdido.
Somar o efeito comercial à conta, principalmente se boa parte do seu faturamento vem de outras empresas.Descobrir que passou do limite depois de passar
O teto de faturamento não avisa quando está chegando. Quem só olha o acumulado no fechamento do ano descobre o problema quando ele já produziu efeito, e aí a conversa deixa de ser sobre escolher e passa a ser sobre regularizar.
Acompanhar o acumulado dos últimos doze meses durante o ano, e não só quando alguém pede o número.Ignorar o que o cliente empresa precisa
Quem vende para outras empresas costuma descobrir essa parte pela pior via: perdendo um cliente antigo para um concorrente com preço igual. A diferença não estava no preço — estava no que aquela compra permitia ao comprador.
Perguntar aos seus clientes empresa o que eles precisam da sua nota. É informação que eles têm e você não.Tratar a escolha como definitiva
Regime não é tatuagem. Ele se revisita conforme a empresa muda de tamanho, de mix de clientes ou de estrutura de custo. Quem decidiu uma vez, há anos, e nunca mais olhou, provavelmente está num regime que fazia sentido para uma empresa que não existe mais.
Revisar a decisão periodicamente, com os números do ano corrente na mão e não com a lembrança de como o negócio era.O que mudou na pergunta
Durante muito tempo, escolher regime foi um exercício fechado: reunir o faturamento, projetar o imposto em cada cenário e ficar com o menor número. Uma conta entre você, o contador e a planilha.
A transição tributária que o país atravessa acrescentou uma segunda pergunta, e ela é de natureza comercial: o cliente que compra de você consegue aproveitar crédito do imposto embutido naquela compra? Se não conseguir, comprar de você custa mais caro para ele do que comprar de um concorrente que gere esse crédito, mesmo que os dois cobrem exatamente o mesmo preço.
Isso muda quem sente o problema. Não é o contador que descobre — ele vê imposto, não vê negociação. Quem descobre é o vendedor, quando um cliente antigo começa a pedir desconto sem explicar direito por quê, ou simplesmente para de comprar.
A decisão continua sendo técnica na hora de calcular. Mas ela virou comercial na hora de escolher, e essa parte não está na planilha de ninguém.
Os três caminhos, sem torcida
O Simples Nacional é o regime pensado para empresas menores, com faturamento anual de até quatro milhões e oitocentos mil reais. Ele unifica tributos e simplifica obrigações, e a entrada nele se dá por opção formalizada, com prazo próprio.
O Lucro Presumido alcança empresas com faturamento anual de até setenta e oito milhões de reais. Nele, a base de cálculo do imposto sobre o lucro é presumida a partir da receita, o que dá previsibilidade — e pode ser bom ou ruim, conforme a margem real do negócio.
O Lucro Real não tem limite de faturamento, e é obrigatório para alguns perfis de empresa. Nele o imposto incide sobre o lucro efetivamente apurado, o que exige controle contábil mais rigoroso e costuma compensar quando a margem é apertada ou quando há prejuízo a compensar.
A forma de entrar em cada um também difere. No Simples, existe uma opção formal a ser feita. No Presumido e no Real, a definição se dá na prática pelo primeiro recolhimento do imposto sobre o lucro no ano, ou pela primeira declaração — o que significa que a escolha se materializa cedo, muitas vezes antes de alguém ter parado para decidir.
O crédito do seu cliente virou argumento de venda
Para entender por que isso pesa, vale pensar do lado de quem compra. Uma empresa que apura imposto e aproveita crédito não enxerga o preço da nota como custo final: enxerga o preço menos aquilo que vai recuperar na apuração.
Dois fornecedores cobrando o mesmo valor, então, não custam a mesma coisa para esse comprador. E como ele conhece bem essa conta — é o negócio dele —, a preferência aparece sem virar conversa explícita.
Isso não afeta todo mundo do mesmo jeito. Quem vende para consumidor final praticamente não sente: pessoa física não aproveita crédito, e o preço é o preço. Quem vende para outras empresas sente diretamente, e quanto maior a fatia de clientes assim, maior o peso.
Por isso a primeira coisa a fazer antes de discutir regime é olhar a própria carteira. Que porcentagem do seu faturamento vem de empresa e qual vem de pessoa física? Sem esse número, a discussão sobre crédito é abstrata; com ele, ela vira uma conta.
Há ainda um ponto em aberto que vale acompanhar: a transição prevê discussões sobre a empresa do Simples poder recolher os tributos novos pelo regime regular sem sair do Simples para o restante. É exatamente o tipo de detalhe que muda a resposta e que precisa ser confirmado com a contabilidade antes de virar decisão.
Sobre o prazo: confira, não confie no que leu
Aqui vai um aviso que vale mais do que qualquer tabela deste post. A opção pelo Simples tem prazo, e circulam informações conflitantes sobre qual é esse prazo para o próximo exercício — parte do material publicado repete a regra clássica, e parte afirma que a data foi antecipada.
Não vamos cravar nenhuma das duas aqui, porque cravar a errada é pior do que não dizer. Uma data errada num assunto desses não gera uma dúvida: gera uma empresa que perdeu a janela.
O que dá para afirmar com segurança é o formato: a entrada no Simples se dá por opção formalizada e tem prazo; o Presumido e o Real se definem pelo primeiro recolhimento do ano. Ou seja, nos três casos a decisão precisa estar tomada antes do começo do exercício, não durante.
Confirme a data vigente no Portal do Simples Nacional e com a sua contabilidade, e faça isso agora — não quando o assunto ficar urgente.
Essa é também a razão de preparar os números antes. Se a data for mais cedo do que você imagina, o que vai faltar não é a decisão: vai faltar a informação para tomá-la.
O que preparar antes de sentar com o contador
A reunião sobre regime costuma ser improdutiva por um motivo específico: o contador chega com a norma e o dono chega sem os números. Aí a conversa vira estimativa, e estimativa não decide nada.
O primeiro número é o faturamento dos últimos doze meses, não o do ano-calendário. É ele que diz quais regimes estão realmente disponíveis, e é ele que mostra se você está se aproximando de algum teto.
O segundo é a composição da carteira: quanto vem de empresa, quanto vem de consumidor final. Esse número decide se a conversa sobre crédito é central ou é detalhe no seu caso.
O terceiro é a margem real, produto a produto, depois de custo de mercadoria, imposto, custo de receber e despesa fixa. É o número mais trabalhoso de obter e o mais importante: mudança de regime mexe na margem, e sem saber onde ela está hoje não dá para avaliar o efeito.
Nenhum desses três se responde de memória, e é justamente por isso que costumam faltar. Quem tem essa informação organizada chega na reunião para decidir; quem não tem chega para adiar.
Quem decide, no fim
Vale ser explícito sobre uma coisa: este post não escolhe regime para ninguém, e nenhum texto de blog deveria. Qual regime compensa depende de faturamento, atividade, estrutura de custo, composição de clientes e do crédito que você aproveita nas suas próprias compras.
Essa análise é da contabilidade, que conhece o seu caso e responde por ele. O que é seu, como dono, é chegar nessa conversa com a informação organizada e com as perguntas certas — inclusive a comercial, que o contador não teria como levantar sozinho.
Também vale desconfiar de qualquer recomendação genérica sobre o assunto, inclusive das que aparecem com números redondos e ar de certeza. Empresas do mesmo tamanho e do mesmo ramo podem ter respostas diferentes por causa do mix de clientes.
O que não muda é a direção do esforço: quanto melhor você conhecer os seus próprios números, melhor será a decisão — em qualquer regime.
O que o sistema resolve nessa decisão
Nenhum sistema escolhe regime. O que ele faz é entregar, em minutos, os números que hoje levam semanas para serem reunidos — e sem os quais a decisão vira palpite.
- Faturamento dos últimos doze mesesO número que define quais regimes estão disponíveis, sempre atualizado e não reconstruído na véspera.
- Carteira separada por tipo de clienteDá para ver quanto do faturamento vem de empresa e quanto vem de consumidor final.
- Margem real por produtoDepois de custo, imposto e custo de receber — que é onde qualquer mudança de regime aparece.
- Aviso de aproximação de limiteO acumulado é acompanhado durante o ano, e não descoberto no fechamento.
- Entradas e saídas organizadasO que você compra com documento e de quem, que é a base do crédito que você mesmo aproveita.
- Relatórios prontos para a contabilidadeA reunião começa pelos números em vez de começar pela procura deles.
Perguntas frequentes
Qual regime é o melhor?
Não existe resposta geral. Depende de faturamento, atividade, estrutura de custo, margem e de quem são os seus clientes — duas empresas do mesmo ramo e do mesmo tamanho podem ter respostas diferentes. A análise é da contabilidade, que conhece o seu caso.
Quais são os limites de cada regime?
O Simples Nacional alcança faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. O Lucro Presumido vai até R$ 78 milhões. O Lucro Real não tem limite de faturamento e é obrigatório para alguns perfis de empresa.
Qual é o prazo para optar pelo Simples?
A opção é formalizada e tem prazo, mas circulam informações conflitantes sobre a data para o próximo exercício. Como uma data errada aqui custa caro, confirme no Portal do Simples Nacional e com a sua contabilidade em vez de confiar em qualquer texto — inclusive este.
Como se define Lucro Presumido ou Lucro Real?
Na prática, pelo primeiro pagamento de IRPJ e CSLL do ano, ou pela primeira declaração. Ou seja, a escolha se materializa no começo do exercício, muitas vezes antes de alguém ter parado para decidir formalmente.
Por que o regime afeta a minha venda?
Porque uma empresa que aproveita crédito não enxerga o preço da nota como custo final, e sim o preço menos o que vai recuperar. Entre dois fornecedores com preço igual, o que gera crédito sai mais barato para esse comprador.
Isso vale para quem vende para o consumidor final?
Muito menos. Pessoa física não aproveita crédito, então para quem vende no varejo essa parte da conta pesa pouco. Quanto maior a fatia de clientes empresa, maior o peso.
Dá para mudar de regime depois?
A decisão é revisitada periodicamente, conforme a empresa muda de tamanho, de mix de clientes ou de estrutura de custo — respeitando os prazos e as regras de cada regime. O erro comum não é escolher errado uma vez: é escolher e nunca mais olhar.
Chegue na conversa com os números na mão
A parte difícil dessa decisão não é a norma — é saber quanto você fatura, para quem vende e qual é a sua margem de verdade. Fale com a Nox e veja como ter esses três números disponíveis a qualquer momento.
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